Nódoa

(...)

Tu disseste: "Agora procuro o desígnio da vida; 
às vezes penso encontrá-lo num bater de asas, 
num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon; 
escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo. 
Depois queimo tudo e prossigo a minha busca.

Eu disse: "Eu não faço nada. 
Fico horas a olhar para uma mancha na parede"

Tu disseste: "E nunca sentiste a mancha a alastrar, 
as suas formas num palpitar quase imperceptível?"

Eu disse: "Não. A mancha continua no mesmo sítio, 
eu continuo a olhar para ela e não se passa nada"

Tu disseste: "E no entanto a mancha alastra 
e toma conta de ti, liberta-te do corpo. Tu é que não vês"

Eu disse: "O que é que isso interessa?"

Tu disseste: "Nada..."

Puxei o tapete

Um morto no hospital, um morto aqui ao lado.

Os mortos não descansam em paz. Não se calam, matam-se mais um pouco todos os dias.

e levam os outros com eles.

E por mais que eu diga que morreram, continuam a viver aqui ao lado, e isto só pode acabar de uma maneira. 

Ela sabe disso.