E de manhã

faltava-te uma camisa no armário.

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Insolação

Era um vampiro que usava bolas de naftalina ao pescoço, e cujo relógio tinha comprado numa das imensas e perdidas lojas do chinês da cidade de Isto-sim-é-longe-para-caralho-e-no-inverno-temos-cheias. O Chinês não achou piada e conjurou uma maldição, atrasando o relógio do vampiro exactamente um minuto e quarenta e seis segundos todas as manhãs. Ora isto resultou no atraso uma destas noites por parte da criatura com cheiro a naftalina, depois de uma noite sem comida, ao que parece o cheiro espanta a caça, mas espanta também o mofo e as traças, que são competição para esta criatura, sugam sangue, sugam dinheiro, mas melhores nessa área são os políticos e os donos de bares de alterne, que ao que parece não existem na cidade das lojas do Chinês. Bem, voltando ao chinês, como resultado da atitude de atrasar o relógio comprado na sua loja pelo vampiro , fez com que este apanhasse uma queimadura solar e quase morresse, mas os políticos subornaram a Morte, e esta cessou funções na Terra do Sempre, que fica mesmo ao lado e duas curvas à direita de Isto-sim-é-longe-para-caralho-e-no-inverno-temos-cheias. Mas o problema é que o Vampiro já estava morto, sugado pelos mesmos políticos, logo vingou-se na Morte que estava de férias nas Caraíbas. Estava a Morte a fumar o seu cigarrinho, a apanhar banhos-de-lua-da-meia-noite, aparece o vampiro de gabardina e chapéu, abre-a e a Morte engasga-se no fumo, pisca-lhe olho e têm uma noite de sexo louco numa gruta, de manhã vem a polícia, vão parar à prisa e a Morte queixa-se que não fica bem de riscas, e que ficou a cheirar a naftalina, o que lembra ao vampiro que deixou o colar de bolas de naftalina que perfumaram a Morte na gruta da praia, e nisto aparece uma traça, enviada pelos Serviços Secretos, com ordens directas dos Políticos, queriam a colaboração das criaturas para tramar o Chinês, mas a Morte disse que não porque estava toda dorida da noite anterior, e não lhe apetecia foder mais ninguém.

coise.

A chama do isqueiro a dançar com o vento.

Está frio. E o fecho do casao estragou-se. Que típico. A rua está vazia, esquecendo os vadios lá ao fundo, um cão a fuçar na porcaria do chão, restos de ontem. Este degrau está imundo, não é coisa que me preocupe, faz parte deste cenáriozinho sujo. Mais uma beata para o chão. Foda-se, acabaram-se os cigarros.

Inércia-Controvérsia

Abri um pouco os olhos. Já não vale a pena voltar a fechá-los, o sono voltou a fugir para dentro do armário.

Levanto-me devagar, arrasto o cobertor pela casa. Piso os traços de luz que passam pela pressiana meio-aberta, sinto o calor que emana do chão que ainda no outro dia pisaste. Estico a mão para o espelho. Um emaranhado de cabelo escuro esconde-me a cara, espreitam por entre ele dois olhos semi-abertos, semi-adormecidos ainda. Pernas dormentes, cabeça pesada. Outra noite estranha. As nossas noites são sempre assim. Foi mais uma. E a última.

Passar as mãos rapidamente pelo cabelo, em busca de algum tipo de ordem, uma enchente de água gelada na cara marcada ainda pela noite e restos de maquilhagem. E o cheiro do café vai enchendo o ar,  o fumo das torradas subindo pelas paredes da cozinha amarelada, confundindo-se com as olheiras, com as nódoas negras, com a camisola da noite anterior que não tive paciência de tirar. Um golo da chávena azul. E o desejo de alguma poção mágica para a enxaqueca. Mas no armário só encontrei aspirinas em pó. Servem.

A água do banho a correr. Devegar, devagar demais, as roupas espalham-se pelo chão, um pé, depois o outro, mandar a cabeça para trás e tocar o fundo da banheira. Fumar um cigarro e ouvir a distorção que emana do rádio, empoleirado na tampa da sanita.

O tecido turco da toalha contra a pele, outra mão que se estica pelo armário e de lá arranca algo, passar novamente as mãos pelo cabelo, perfume, o tilintar das chaves.

Saí.