Mr. Jack

Mr. Jack is always with me, inside this pocket, next to my heart.

Mr.Jack and I.

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quarto minguante

-Bebe mais um golo.

Há ovelhas dentro daquele copo. Não são reais, nem eléctricas, somos andróides mas de outro tipo. Há reflexos, há o mundo dentro daquele copo.

“Não quero ficar atrás na competição
Mas a luta é feroz
Parte o coração
Por vezes vou desistir, considero os porquês
Mas são mais os senãos
Fica p’ra a outra vez
E às vezes entro numa espécie de transe
Se ao menos isto desse um bom romance…
– Meu deus, tenho tanto frio

Acendo mais um cigarro, é preciso esquecer
O que não correu bem
Dar o braço a torcer
Acorro ao telefone que estava a chamar
Mas ninguém respondeu
Era alguém a brincar
E os olhos batem numa fotografia
Há algum tempo que eu já não me via…
– Eh pá, eu já fui assim!

Esborracho o meu nariz de encontro à vidraça
Na janela do quarto
Fico a ver quem passa
Enquanto que o dia mergulha na escuridão
Ouço alguém a falar
É a televisão
E saio de casa em busca de calor
Vou ver se encontro o meu sentido de humor…
– Estou claustrofóbico de mim!(…)”

-Oh senhor, não se cale! Mais um brinde a si.

how to be a great writer

you’ve got to fuck a great many women

beautiful women

and write a few decent love poems.

and don’t worry about age

and / or freshly-arrived talents.

just drink more beer

more and more beer

and attend the racetrack at least once a

week

and win

if possible.

learning to win is hard–

any slob can be a good loser.

and don’t forget your Brahms

and your Bach and your

beer.

don’t overexcercise.

sleep until noon.

avoid credit cards

or paying for anything on

time.

remember that there isn’t a piece of ass

in this world worth more than $50

(in 1977).

and if you have the ability to love

love yourself first

but always be aware of the possibility of

total defeat

whether the reason for that defeat

seems right or wrong–

an early taste of death is not necessarily

a bad thing.

stay out of churches and bars and museums,

and like the spider be

patient–

time is everybody’s cross,

plus

exile

defeat

treachery

all that dross.

stay with the beer.

beer is continuous blood.

a continuous lover.

get a large typewriter

and as the footsteps go up and down

outside your window

hit that thing

hit it hard

make it a heavyweight fight

make it the bull when he first charges in

and remember the old dogs

who fought so well:

Hemingway, Celine, Dostoevsky, Hamsun.

If you don’t think they didn’t go crazy

in tiny rooms

just like you’re doing now

without women

without food

without hope

then you’re not ready.

drink more beer.

there’s time.

and if there’s not

that’s all right

too.

C. Bukowski.

(passar um dia com “Love is a dog from hell”, jack daniels, cerveja e uma flor de jardim que alguém me deu a caminho da ginecologista.)

k.jpg 

depois deixei o cinzeiro cair no chão. e não se partiu.

Lembro-me que sonhei alguma coisa esta noite.

O cinzeiro quase vomita a cinza de tabaco. A cama está desfeita, um lençol no chão, amarrotado, espalhado. Um maço de davidoff vazio ao lado da cabeceira da cama. O telemóvel desligado e o Molder a olhar para mim por cima da lareira.

Tenho que fazer algo com este cabelo. Passo as mãos, desfaço uns nós, que raio, aqui tudo está num meio-termo, não são caracóis nem deixam de ser, não é dia nem noite, o limbo, o limbo, o limbo. Uma prisão de “mais ou menos”, não há sins nem nãos, está tudo num centro que nem centro é, é tudo e é nada.

“smiling and waving and looking so fine…”

E ele continua para ali a berrar. Que berre, no meio da desarrumação deste quarto encaixa tão bem.

Olha, mais uma gaveta aberta, mais uma gaveta. Cheia de nada, há quem diga que está vazia. Mas e o ar?

Quem tem ar de louca hoje sou eu.  E faltam-me os cigarros, acabaram e não vou sair daqui hoje. Não saio do centro de uma cama desfeita, de um quarto cheio de pó, de lençol e roupas no chão, e eu aqui, e uma bola de cotão que olha para mim com os mesmos olhos do Molder, o Molder transformado em cotão, e eu em pó, e ao pó regressa tudo e todos, somos pó antropomórfico, e não me quero mexer. Não suporto a ideia de me mexer dentro deste robe sequer, senti-lo roçar-me a pele, o cabelo ainda molhado, cheio de nós, a tesoura que grita no parapeito da janela, “usa-me!”, mas não me vou mexer daqui.

Hoje sonhei qualquer coisa. Mas esqueci-me.